quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

RELAÇÃO HOMEM NATUREZA


O ser humano pode ajustar-se a um número maior de ambientes do que qualquer outra criatura, multiplicar-se infinitamente mais depressa do que qualquer mamífero superior, e derrotar o urso polar, a lebre, o gavião e o tigre, em seus recursos especiais. Pelo controle do fogo e pela habilidade de fazer roupas e casas, o homem pode viver, vive e viceja, desde os pólos da Terra até o equador. Nos trens e automóveis que constrói, pode superar a mais rápida lebre ou avestruz. Nos aviões e foguetes pode subir mais alto do que a águia, e, com os telescópios, ver mais longe do que o gavião. Com armas de fogo pode derrubar animais que nenhum tigre ousaria atacar. Mas fogo, roupas, casas, trens, automóveis, aviões, telescópios e armas de fogo não são parte do corpo do homem. Eles não são herdados no sentido biológico. O conhecimento necessário para sua prodão e uso é parte do nosso legado social. Resulta de uma tradição acumulada por muitas gerações e transmitida, não pelo sangue, mas através da linguagem (fala e escrita). A compensação que o homem tem pelos seus dotes corporais relativamente pobres é o cérebro grande e complexo, centro de um extenso e delicado sistema nervoso, que lhe permite desenvolver sua própria cultura.
(Childe Gordon)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens


O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastantes simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: "Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!". Parece, porém, que as coisas já tinham chegado ao ponto de não mais poder ficar como estavam: porque essa ideia de propriedade, dependendo muito de ideias anteriores que só puderam nascer sucessivamente, não se formou de repente no espírito humano: foi preciso fazer muitos progressos, adquirir muita indústria e luzes, transmiti-las e aumentá-las de idade em idade, antes de chegar a esse último termo do estado de natureza. Retomemos, pois, as coisas de mais alto, e tratemos de reunir, sob um só ponto-de-vista, essa lenta sucessão de acontecimentos e de conhecimentos na sua ordem mais natural.
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Jean-Jacques Rousseau. Origem da desigualdade entre os homens - Parte 2.

Do Contrato Social de Rousseau



Quanto mais bem constituído for o Estado, tanto mais os negócios públicos sobrepujarão os particulares no espírito dos cidadãos. Haverá até um número menor de negócios particulares, porque, com a soma da felicidade comum fornecendo uma porção mais considerável à felicidade de cada indivíduo, restar-lhe-á menos a conseguir em seus interesses particulares. Em uma pólis bem constituída, todos correm para as assembleias; sob um mau governo, ninguém quer dar um passo para ir até elas, pois ninguém se interessa pelo que nelas acontece, prevendo-se que a vontade geral não dominará, e porque, enfim, os cuidados domésticos tudo absorvem. As boas leis contribuem para que se façam outras melhores, as más levam a leis piores. Quando alguém disser dos negócios do Estado: Que me importa? – pode-se estar certo de que o Estado está perdido. A diminuição do amor à pátria, a ação do interesse particular, a imensidão dos Estados, as conquistas, os abusos do governo fizeram que se imaginasse o recurso dos deputados ou representantes do povo nas assembleias da nação. É o que em certos países ousam chamar de Terceiro Estado. Desse modo, o interesse particular das duas ordens é colocado em primeiro e segundo lugares, ficando o interesse público em terceiro. A soberania não pode ser representada pela mesma razão por que não pode ser alienada, consiste essencialmente na vontade geral e a vontade absolutamente não se representa. É ela mesma ou é outra, não há meio-termo. Os deputados do povo não são, nem podem ser seus representantes; não passam de comissários seus, nada podendo concluir definitivamente. É nula toda lei que o povo diretamente não ratificar; em absoluto, não é lei. O povo pensa ser livre e muito se engana, pois só o é durante a eleição dos membros do parlamento; uma vez estes eleitos, ele é escravo, não é nada. Durante os breves momentos de sua liberdade, o uso, que dela faz, mostra que merece perdê-la.
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Jean-Jacques Rousseau. Do contrato social. São Paulo: Abril, 1973, livro III, cap. XV, p. 111-114 (com adaptações).

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Carta do Chefe Seatle para o Presidente dos Estados Unidos em 1850

O que ocorrer com a Terra, recairá sobre os filhos da Terra. Há uma ligação em tudo. Como que é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da Terra? Essa ideia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?

Cada pedaço dessa terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.

Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela Terra, pois ela é mãe do homem vermelho. Somos parte da Terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro e o homem – todos pertencem à mesma família.

Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós. O Grande Chefe diz que reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil. Esta terra é sagrada para nós.

Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar as suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala dos acontecimentos e lembranças da vida de meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.

Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar-se e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar ao rio a bondade que dedicaram a qualquer irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o significado de qualquer outra coisa, pois é forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Tratam sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra deixando somente um deserto.

Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades ferem os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.

Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar das flores e folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio encrespando a face do lago, é o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.

O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro – o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que mantém. O vento que deu a nosso avô seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro. Se lhe vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores dos prados.

Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos.

Sou um selvagem e não compreendo nenhuma outra forma de agir. Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonado pelo homem branco que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecer vivos?

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.

Vocês devem ensinar as suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a Terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas: que a Terra é nossa mãe. Tudo o que acontece à Terra, acontecerá aos filhos da Terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.

Isto sabemos: a Terra não pertence ao homem; o homem pertence à Terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorre com a Terra recairá sobre os filhos da Terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo. Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos – e o home branco poderá vir a descobris um dia; nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que o possuem, como desejam possuir nossa terra; mas não é possível. Ele é o Deus do homem, e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A Terra lhe é preciosa e feri-la é desprezar seu criador. Os homens brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios desejos.

Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens e a visão dos morros obstruídas por fios que falam. Onde está a águia? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência. 
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Carta que o Chefe Seatle escreveu ao presidente dos Estado Unidos em 1850, quando o governo americano propôs comprar as terras de seu povo. FYI: FOR YOU INFORMATION. São Paulo: União Cultural Brasil-Estados Unidos. Vol. 3, n. 3, setembro de 1995.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Nascimento da Filosofia Ocidental

Por volta dos séculos VI e VII antes de Cristo, surgia na Grécia Antiga o que chamamos de FILOSOFIA, ou seja, o "amor ao saber". Naquela época, a Grécia correspondia ao território que se estendia por todo o lado sul do mar Mediterrâneo, neste imenso território, especificamente na Jônia, nascera Tales de Mileto (643-546 a.C.), aquele que viria a se tornar o primeiro filósofo, é claro que Tales não foi apenas um filósofo, ele também desenvolveu teoremas matemáticos, geométricos e realizou estudos astronômicos.

No entanto, o que importa é que em tempos tão remotos nos quais a humanidade se baseava em explicações míticas sobre o universo Tales conseguiu fazer o inesperado. Era comum acreditar que os deuses tinham o domínio sobre o destino da humanidade. Já para o raciocínio filosófico esse fato tornava-se questionável, inclusive os fatos de natureza física, ou até mesmo a noção sobre a origem do cosmos.

Aliado a todo esse contexto, havia também outro fato que coincidia com o surgimento da filosofia, era a formação das Pólis, isso mesmo, aquele período foi testemunha da edificação de diversas Cidades-Estados, cada uma com política, crença, leis e modo de viver bem distintos entre si. Este ambiente foi propício para a prática do discurso (logos).

Sem essas condições não seria possível considerar que Tales inaugurou a filosofia, isso também não significa que Tales foi o único filósofo, na verdade, Tales só deu o passo inicial quando se propôs responder a pergunta fundamental da época: Qual a origem de todas as coisas e do universo?

A resposta para essa pergunta pode não ser a mais adequada, mas foi a partir da reflexão sobre a água como ARCHÉ que surgiram outros filósofos, como: Anaximandro, Anaxímenes, Pitágoras, entre outros mais.

Porém, a ruptura entre mito e razão não foi um processo brusco e rápido, de fato a transição ocorreu de modo lento e progressivo, até porque, muitos filósofos fizeram uso do mito como meio de explicação sobre a realidade por se tratar de um instrumento eficaz de analogia.

Portanto, a filosofia não nasce do nada, ela surge do simples ato de questionar, raciocinar e discursar. Se Tales preferiu ser chamado de filósofo em vez de mestre foi porque se considerava um simples aprendiz e eterno apaixonado pelo saber. Esse tipo de postura contagiante se tornou na semente da sabedoria.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Relação entre a educação platônica e o Bem


3.1     A Educação e o Conhecimento do Bem nas Metáforas do Sol e da Linha Dividida

Conforme já vimos anteriormente, a educação proposta por Platão ao cidadão se destina à alma humana, assim, sua preocupação em formar o guardião passa pelas virtudes relativas a cada parte da alma humana. Deste modo, neste, iremos ver como que a educação platônica se relaciona com o conhecimento do Bem e em que medida o guardião obtém o conhecimento da ideia de Bem através da educação.

Por isso, antes de mais nada, é preciso saber em que medida a educação platônica se relaciona com a ideia de Bem, além disso, também é necessário caracterizá-la. Por estes motivos, vejamos o que Platão explica por meio da metáfora do Sol: nela ele diz que o ser é cognoscível, e que a ideia de Bem é a causa de todo o saber e da verdade. Assim, a metáfora do sol representa uma analogia entre o sol e o Bem, o mundo inteligível e o sensível. Mas que, em ambos o verdadeiro saber só é possível porque o fim último é a ideia de Bem, porquanto todas as coisas participam dela. Deste modo, quando Platão postula que a ideias de Bem é o princípio de tudo como causa verdadeira e que esta causa habita o plano inteligível, isso possibilita explicar a existência de tudo por meio deste único princípio que não se apoia nas coisas sensíveis, que é gerado e perece, mas que são as coisas sensíveis que são explicadas em função da relação que há com a ideia de Bem (cf. REALE, 1994. pp. 55-56).

Neste aspecto, Platão pretende não só explicar a causa estruturadora do mundo sensível por meio do inteligível, mas também associá-los conforme ele mesmo expõe na metáfora do sol, pois essa associação só é possível porque Platão entende que o Bem, enquanto medida, é análogo ao sol porquanto ambos são “o princípio” que possibilita a existência de todas as demais coisas. O Bem enquanto princípio inteligível e o sol como princípio sensível.

Assim, toda a realidade sensível e inteligível é explicada através de um único princípio. Mas para compreendermos melhor a relação entre o sol e o Bem, e a função que ambos desempenham, respectivamente no sensível e no inteligível, veremos a metáfora do sol, pois ela faz uma relação entre o sol e o Bem, os dois mundos e seus objetos cognoscíveis. Conforme isso, para entender melhor esta relação, recorreremos ao seguinte esquema de Adam contido em forma de nota de roda pé na República traduzida por Maria Helena da Rocha Pereira. O esquema dispõe os elementos do mundo sensível na seguinte ordem: em primeiro vem o Sol, em seguida vem a luz, os objetos da visão (cores), o sujeito que vê, órgão da visão (olhos), faculdade da visão (ópsis), exercício da visão (ópsis, óran) e por fim a aptidão para ver. Análogos a estes elementos acima mencionados, seguem a mesma ordem os elementos do mundo inteligível: Ideia de Bem (sol), verdade (luz), objetos do conhecimento eidos (objetos da visão), sujeito cognoscente (sujeito que vê), órgãos do conhecimento (órgãos da visão), faculdade da razão nous (faculdade da visão), exercício da razão (exercício da visão) e aptidão para conhecer (aptidão para ver). Esta é a estrutura do mundo sensível e do inteligível em forma de analogia, em seguida, veremos a citação que explica a analogia entre os elementos dos dois mundos conforme o esquema acima mencionado referente ao “poder de conhecer”: O poder (dýnamis) de conhecer, como nota Adam, não é “a faculdade do conhecimento ou a razão, mas o poder de exercer essa faculdade, escassamente diferente, na verdade, do exercício da razão em si”. (ADAM, apud, A República, 2007, pp. 308-309), ou seja, o poder que o Homem tem de conhecer nada mais é a sua própria capacidade de exercer essa habilidade ou potência inerente à sua alma, mas isso só é assim porque a alma humana é dotada de razão. Também podemos constatar que esta dualidade da realidade apresentada na metáfora do sol é uma marca da filosofia platônica. Assim, sua relação e analogia não são meramente ocasionais, mas são essenciais para a explicação da realidade conforme a da teoria das ideias pensada por Platão. Deste modo, podemos verificar o que diz Reale sobre este assunto no item quatro do capítulo III da História da Filosofia Antiga:

As realidades empíricas são sensíveis, ao passo que as Ideias são inteligíveis; as realidades físicas são mescladas com o não-ser, enquanto as Ideias são o ser em sentido puro e total; as realidades sensíveis são corpóreas, enquanto as Ideias são incorpóreas; as realidades sensíveis são corruptíveis, enquanto as Ideias são estáveis e eternas; as coisas sensíveis são relativas, ao passo que as Ideias são absolutas; as coisas sensíveis são múltiplas, ao passo que as Ideias são unidade. (REALE, 1994, pp. 75-76)

Esta é a dualidade presente na realidade, isso explica a essência da realidade enquanto mundo material e imaterial na medida em que o material é aprendido pelos sentidos e o imaterial pela razão. Mas ainda sobre a metáfora do sol, poderemos averiguar pelas palavras de Platão, o que é o Bem enquanto princípio inteligível, pois após a explicação sobre o poder de conhecer os objetos sensíveis, que é possibilitado pela luz solar, Platão aborda a natureza do ser em analogia com o sol:

– Podes dizer que é o sol, que eu considero filho do bem, que o bem gerou à sua semelhança, o qual bem é, no mundo inteligível, em relação à inteligência e ao inteligível, o mesmo que o sol no mundo visível em relação à vista e ao visível. (...) – Sabes que os olhos quando se voltam para objetos cujas cores já não são mantidas pela luz do dia, mas pelos clarões noturnos, vêem mal e parecem quase cegos, como se não tivessem uma visão clara. (...) – Mas, quando se voltam para os que são iluminados pelo sol, acho que vêem nitidamente e torna-se evidente que esses mesmos olhos têm uma visão clara. (...) – Portanto, relativamente à alma, reflete assim: quando ela se fixa num objeto iluminado pela verdade e pelo ser, compreende-o, conhece-o e parece inteligente, porém quando se fixa num objeto ao qual se misturam às trevas, o que nasce e morre, só sabe ter opiniões, vê mal, alterando o seu parecer de alto a baixo, e parece já não ter inteligência. (...) – Fica sabendo que o que transmite a verdade aos objetos cognoscíveis e dá ao sujeito que conhece esse poder, é a ideias do bem. Entende que é ela a causa do saber e da verdade, na medida em que esta é conhecida, mas sendo ambos assim belos, o saber e a verdade, terás razão em pensar corretamente que neste mundo a luz e a vista são semelhantes ao sol, mas já não é certo tomá-las pelo sol, da mesma maneira, no outro, é correto considerar a ciência e a verdade, ambas elas, semelhantes ao bem, mas não está certo tomá-las, a uma ou a outra, pelo bem, mas sim formar um conceito ainda mais elevado do que seja o bem. (A REPÚBLICA, 508c-509a)

Deste modo, o conhecimento do Bem também é explicado por Platão através da metáfora da linha dividida, mas antes disso, voltemos para o livro V da República, onde Platão trata da definição de ciência e ignorância para constatar que a ciência é o conhecimento do ser, pois só se pode conhecer algo que exista. Já ao contrário disso, o ato de não conhecer refere-se ao não-ser na medida em que não se pode conhecer algo que não exista (cf. A REPÚBLICA, 478c). Assim, fica definido a relação que há entre o saber e o ser, isso, na proporção em que o Homem se afasta da ignorância e evita contentar-se com a aparência proveniente da opinião, pois Segundo Platão, a opinião consiste em um meio termo entre ignorância e saber, no qual se encontra toda a multiplicidade de coisas aparentes (cf. A REPÚBLICA, 479e). Assim, se a ciência refere-se ao conhecimento do ser, logo, conhecer algo é conhecer a sua essência, que consequentemente em última análise, é a ideia de Bem.

Em conformidade com isso, mais adiante, no Livro VI da República, Platão conclui a questão do conhecimento acerca do ser fazendo a metáfora da linha dividida, pois nesta metáfora que sucede à do Sol, Platão distingui os objetos cognoscíveis dos dois mundos da seguinte forma: primeiro, se tomarmos uma linha e a dividimos em tamanhos desiguais obteremos dois pedaços de linha, um deles se refere ao mundo sensível e o outro ao inteligível, e se em seguida, tornamos a dividir os dois pedaços de linha em partes proporcionais na metade, obteremos quatro segmentos. Os pedaços da linha que se referem ao mundo sensível irão representar as imagens, sendo que um pedaço representa as sombras e o outro as imagens dos objetos sensíveis. Já com a linha que se refere ao mundo inteligível, essa é associada às hipóteses acerca do ser obtidas pelas ciências exatas, enquanto o outro pedaço irá se referir ao conhecimento dialético. Obtendo isso, os quatro pedaços de linha são aplicados às quatro operações da alma, a saber, a inteligência, o entendimento, a fé e a suposição (cf. A REPÚBLICA, 510-511).

Deste modo, a inteligência e o entendimento irão juntos se referirem ao mundo inteligível que só é apreendido pela razão através da educação da alma por meio da mégiston máthema e da dialética, em seguida a fé a suposição são relativas aos objetos sensíveis e suas imagens que são atribuídas às imagens obtidas das sombras no mundo sensível. A fé e a suposição são apreendidas a partir das opiniões que se formam acerca dos objetos sensíveis.

Por conseguinte, Platão postula o princípio que não admite hipótese alguma por se tratar do fim último de tudo, ou seja, a ideia de Bem (cf. A REPÚBLICA, 511c). Assim, o conhecimento acerca da ideia de Bem deve necessariamente ascender degrau a degrau por todas as quatro operações da alma. Neste caso, o princípio que não admite hipótese alguma só é aprendido pela alma do filósofo, pois esse já tem em sua natureza a prática da dialética, logo, o exercício dialético o conduz a contemplação e a compreensão do Bem.

Portanto, a educação do guardião, que se tornará filósofo, se faz necessária na medida em que ela o conduz para o conhecimento da ideia de Bem, pois conhecê-la, segundo Platão, é conhecer a essência existente na multiplicidade. Assim, segundo Jaeger, Platão explica que a educação tem como meta a ideia de Bem, pois tudo o que é belo, justo e honesto o é em virtude da ideia de Bem. Logo, sem o conhecimento do Bem, qualquer outro saber se torna por si só inútil (cf. JAEGER, 2001, p. 867). A isso, podemos incluir as virtudes, pois para formar o cidadão, que se tornará filósofo, é necessário imbuí-lo das virtudes em consonância com o Bem, neste aspecto, as virtudes almejadas e definidas por Platão são como uma medida perfeita para a alma do filósofo, análoga a isso, a ideia de Bem é a medida perfeita das virtudes, pois em última instância as virtudes só são consideradas como tais, por Platão, porque elas participam do Bem.

Assim, uma vez que a educação do cidadão se relaciona com o conhecimento do Bem, passaremos adiante a questão sobre o propósito platónico para a educação do cidadão nos moldes de sua filosofia política expressa pela alegoria da caverna, e então, tentaremos entender a aplicação da educação platônica na formação do cidadão.


3.2    Educação e Política na Alegoria da Caverna

Uma vez que já vimos a relação entre a educação e o conhecimento do Bem segundo Platão, deste ponto em diante iremos voltar à hipótese levantada no subcapítulo 2.3, para tentar entender se Platão pretende educar o cidadão em prol de formar o filósofo rei, ou seja, o governante do seu Estado e verificar se a importância da educação do cidadão, em Platão, se dá por conta disso.

Deste modo, tomaremos como base para a nossa reflexão a alegoria da caverna, que se encontra logo no início do livro VII da República, e a partir dela então, tentaremos interpretá-la a fim de tecer alguns comentários sobre tal texto. Isso porque segundo julgamos, a alegoria da caverna é o texto que trata da educação e das Ideias de modo peculiar, contendo assim, os elementos necessários para o início de nossa reflexão sobre o tema proposto para presente subcapítulo, conforme a seguir:

– Imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se constrói um pequeno muro, no gênero do tapumes que os homens dos ‘robertos’ colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles. (...)
– Imagina também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de valor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados. (...)
– Em primeiro lugar, pensa que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outro, algo mais que as sombras projetadas pelo fogo na parede oposta da caverna? (...)
– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam? (...)
– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava? (...)
– De qualquer modo, pessoas nessas condições não pensariam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos. (grifo meu) (A REPÚBLICA, 514a-515c)

Em primeiro lugar, utilizamos a alegoria da caverna para tentar entender a analogia que há entre os habitantes da caverna com os habitantes do mundo sensível, ou seja, o mundo terreno em que vivemos sendo representado pela caverna. Pois, como o próprio Sócrates propõe logo de início, estes habitantes são analogamente semelhantes a nós, mas por que isso? E em que medida somos semelhantes aos habitantes descritos na alegoria da caverna?

Ora, essa analogia só faz sentido mediante a compreensão que Platão tem sobre o mundo, pois sabemos que ele entende o mundo sendo dividido em dois – conforme abordado no subcapítulo-3.1 –, ou seja, um que é real e se refere ao mundo das Ideias ou inteligível, e outro que é “aparente” referindo-se ao mundo sensível ou visível. Isso conforme podemos constatar na alegoria do sol (cf. A REPÚBLICA, 508).

Contudo, uma vez que somos habitantes do mundo sensível e estamos presos a ele corporalmente, de acordo com a narrativa da alegoria da caverna, torna-se necessário então nos libertar dos grilhões. No entanto, para Platão, essa libertação só se dá por meio do intelecto, ou seja, através da razão ao atingir a contemplação da ideia de Bem (cf. A REPÚBLICA, 508e), pois essa contemplação da ideia de Bem consiste no próprio ato de conhecer.

Assim, conforme o que diz a alegoria da caverna, a educação dos habitantes da caverna se torna necessária e ocorre por conta da condição física e intelectual em que se encontram os homens, ou seja, habitando as trevas, vislumbrando as sombras e aprisionados pela ignorância.
Deste modo, como grifamos logo no início da citação da alegoria da caverna, observa-se que a situação em que estes habitantes se encontram se deve ao tipo de educação que tiveram, o que torna-os ignorantes acerca da verdade sem conhecer o Bem em si. Assim, torna-se necessário a educação dos mesmos para a sua libertação da ignorância mediante a ascensão da alma ao mundo inteligível por meio da verdade, conforme podemos averiguar na citação a seguir sobre o caráter da educação proposta por Platão pela boca de Sócrates.

– A educação seria, por conseguinte, a arte desse desejo, a maneira mais fácil e mais eficaz de fazer dar a volta a esse órgão, não a de fazer obter a visão, pois já a tem, mas, uma vez que ele não está na posição correta e não olha para onde deve, dar-lhe os meios para isso.
– Por conseguinte, as outras qualidades chamadas da alma podem muito bem aproximar-se das do corpo; com efeito, se não existiram previamente, podem criar-se depois pelo hábito e pela prática. Mas a faculdade de pensar é, ao que parece, de um caráter mais divino, do que tudo o mais; nunca perde a força e, conforme a volta que lhe derem, pode tornar-se vantajosa e útil, ou inútil e prejudicial. Ou ainda não te apercebeste como a deplorável alma dos chamados perversos, mas que na verdade são espertos, tem um olhar penetrante e distingue claramente os objetos para os quais se volta, uma vez que não tem uma vista fraca, mas é forçado a estar ao serviço do mal, de maneira que, quanto mais aguda for a sua visão, maior é o mal que pratica?
– Absolutamente.
– Contudo, se desde a infância se operasse logo uma alma com tal natureza, cortando essa espécie de pesos de chumbo, que são da família do mutável e que, pela sua inclinação para a comida e prazeres similares e gulodices, voltam a vista da alma para baixo; se, liberta desses pesos, se voltasse para a verdade, também ela a veria nesses mesmos homens, com maior clareza, tal como agora vê aquilo para que está voltada.
– É natural.
– Ora pois! Não é natural, e não é forçoso, de acordo como que anteriormente dissemos, que nem os que não receberam educação nem experiência da verdade jamais serão capazes de administrar satisfatoriamente a cidade? (A REPÚBLICA, 518e – 519c)

Desta forma, em Platão, a educação tem como função primordial, fazer a alma, por meio da razão e da prática das virtudes, voltar-se para a ideia de Bem, e por meio de sua ascensão o Homem desprender-se-á das opiniões formadas pela visão das sombras projetadas na parede da caverna.

Assim, aquele que tem a alma de filósofo, só o é porque ele obteve a contemplação do Bem através da luz da verdade. Logo, essa educação torna-se indispensável para a formação do filósofo, isso, na medida em que ele deverá ser também o administrador e educador da cidade. Com isso, todo cidadão do grupo dos guardiões deve se submeter a esta educação desde a infância.

Em suma, o filósofo é educado para governar, contudo, essa educação consiste no fato de que ele deve atingir o mundo inteligível por meio da contemplação das Ideias a partir da alma racional. Pois elas (as Ideias) são os arquétipos que dão forma ao múltiplo, mas isso, na medida em que elas são hierarquizadas conforme o grau de proximidade com o Uno-Bem.

Nesta instância se explica porque que Platão discorre sobre a alegoria do Sol primeiro que a alegoria da caverna, pois sem as preliminares acerca da natureza dos mundos a educação dos prisioneiros não teria nexo porquanto o filósofo é aquele homem que é forçado por meio da educação a olhar para a luz e sair da caverna, e assim, conhecer a essência do ser.

Com isso, seu retorno à caverna tem como objetivo uma reeducação dos habitantes que se encontram prisioneiros da ignorância a fim de libertá-los, pois o filósofo é aquele Homem que ascendeu o íngreme caminho no sentido da luz. Por fim, ele é o único que conhece o fim último de todas as coisas, sejam elas sensíveis ou inteligíveis, pois a contemplação da ideias de Bem lhe proporciona a compreensão da verdade. Por isso, seu retorno à caverna é necessário.

Assim, percebemos que o filósofo irá exercer duas funções primordiais para a implantação do novo Estado, uma é educar e a outra é governar. Mas sem a primeira função e nos moldes apresentados aqui o filósofo não seria capaz de governar com sucesso, pois como o próprio Sócrates diz acerca do filósofo que retorna à caverna, ele seria motivo de zombaria por parte dos prisioneiros e caso o filósofo tentasse soltá-los, os prisioneiros revoltosos tentariam matar ele (cf. A REPÚBLICA, 517a).

Portanto, é primordial que na medida do possível o filósofo aviste a ideia de Bem e se aproxime dela, pois uma vez avistada ele compreende a causa do que é justo e belo. Além disso, o Bem é a medida de tudo no mundo visível e inteligível, pois o Bem é dono da verdade, então é imprescindível que o filósofo aviste a ideia de Bem para ser sensato tanto na vida particular quanto na pública (cf. A REPÚBLICA, 517c).

Deste modo, só o filósofo, em Platão, tem a tarefa de governante e educador, pois, pelo fato dele ser um Homem que também viveu na caverna prisioneiro da ignorância, e que, se libertou em busca da verdade por meio da educação de sua alma através da prática das virtudes que a regulam. Logo, ele compreende plenamente a dimensão dos dois mundos, isso, na medida em que ele habita na caverna e sai dela. Assim, sua saída da caverna lhe torna capaz de conhecer o que é necessário na melhor medida, ao contrário de quem está prisioneiro na caverna. Consequentemente, o filósofo, para Platão, está apto para exercer o governo conforme a medida justa, aliado a isso, seu governo também exerce a função educativa para formar os demais concidadãos, pois como o desejo do filósofo é governar com equidade, reciprocamente, ele almeja educar seus concidadãos para atingirem a perfeição em suas almas com a meta de formar novos filósofos-reis.

Copyright(C) 2006 por Fabiano Lima Simor.
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A História das Coisas

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